Intra-Empreendedorismo, é um conceito estabelecido há mais de três décadas, mas com uma implementação difícil, é um sistema usado para acelerar a inovação dentro das empresas, através dos seus melhores funcionários e útil para enfrentar os novos desafios empresariais.

Surge o intra-empreendedorismo, que se caracteriza por acções de aceleração da inovação dentro das grandes organizações, estimulando os colaboradores com características empreendedoras a despoletarem ideias originais e inovadoras.

– Pinchot, 2004

O que é o Intra-Empreendedorismo?

A competitividade entre as diversas organizações tem sido cada vez mais intensa, fruto de uma rede cada vez maior de informação e de uma maior abertura de mercado (Davidsson, Delmar & Wiklund, 2006), levando a que novas organizações surjam dia após dia. Por consequência, são postos em causa o valor e a posição das organizações, obrigando-as a renovarem-se, a re-inventarem-se e a prepararem-se para novos desafios (Naisbett, 1986).

Intra-empreendedorismo - The Economist - 1982

A revista The Economist serviu como base de lançamento para uma teoria em que o autor, Norman Macrae, primeiro em 1976 e depois em 1982, defendia que as organizações com maior capacidade de sobrevivência a curto, médio e longo prazo seriam aquelas que encontrassem outros meios para desenvolver as suas atividades quase de forma paralela à sua atividade principal e que conseguissem formar equipas ou grupos de trabalho com o objetivo de iniciar ações intra-empreendedoras (Sarkar, 2010). Assim surge o intra-empreendedorismo, que se caracteriza por acções de aceleração da inovação dentro das grandes organizações, estimulando os colaboradores com características empreendedoras a despoletarem ideias originais e inovadoras (Pinchot, 2004).

Intra-empreendedorismo - Norman Macrae

O objetivo aqui é simples: fomentar a criação de empreendedores dentro da própria organização de forma a prepara-la para o futuro (Pinchot & Pellman, 1985). É neste contexto que o intra-empreendedorismo ganha destaque, quando organizações procuram valorizar o espírito empreendedor interno ao estimular todos os colaboradores a procurarem a concretização das suas ideias e dos seus projetos (Sarkar, 2010). Este comportamento fomenta a motivação intrínseca dos colaboradores (que são quem melhor conhece a organização), através da liberdade de raciocínio e de ação (Pinchot & Pellman, 1985).

John Naisbett (1986) afirma que o intra-empreendedorismo é uma forma de encontrar novos mercados e novos negócios coerentes com os objetivos globais da organização, tornando-se num fator crucial para a sua sobrevivência (Kanter, 1997). Para organizações altamente burocratizadas e que estagnam competitivamente, este comportamento é uma mais-valia, visto que o intra-empreendedor procura conquistar novamente a atenção para o cliente e para o produto, levando a uma redefinição clara dos objetivos e da missão da empresa (Stokes,Wilson&Mador, 2010). Em vez de tomar a iniciativa de criar o seu próprio negócio, o indivíduo tem a iniciativa de inovar, de criar e procurar novas e melhores oportunidades de negócio para a organização em que se insere e para os seus colegas de trabalho (Grebel, 2004).

Intra-empreendedorismo - Gifford Pinchot III

Segundo Pinchot & Pellman (1985), o custo que uma organização enfrenta ao perder um empreendedor é superior à simples perda de um funcionário qualificado. É preciso estimular um espírito empreendedor nas organizações de forma a promover o envolvimento pessoal e coletivo. Os mesmos autores apontam algumas soluções para o fazer, das quais destacamos três: (1) os colaboradores devem ser incentivados a participar na gestão da empresa; (2) os colaboradores devem ser incentivados a participar no orçamento da empresa, tornando-os sócios da própria empresa; (3) participação nos lucros da empresa; Para isso, é importante que exista uma cultura empresarial inclusiva e com capacidade de resposta, de forma a que o desenvolvimento ou crescimento passe essencialmente por todos os elementos da organização (Dornelas, 2003).

Sarkar (2010) refere a importância do intra-empreendedorismo dando o exemplo, da Google onde os colaboradores dedicam parte do seu horário de trabalho, a desenvolver outros projetos do seu interesse, criando assim uma política de inovação e de constante estímulo intelectual, levando a que o projeto atual seja constantemente posto em causa e isso leve à criação de valor.

Intra-empreendedorismo - Soumodip Sarkar

Esta procura pela criação de valor levou um funcionário da Google a desenvolver a ideia do actual Orkut, que se tornou o sítio da internet mais visitado em todo o Brasil, ultrapassando o próprio Google Brasil. Outro importante exemplo provêm da Yahoo, com o seu modelo Brickhouse, que procura estimular a troca de ideias e a criação de valor, incentivando a liberdade intelectual ao permitir que qualquer funcionário da empresa possa enviar propostas de possíveis novos produtos ou serviços à administração da empresa, que serão posteriormente analisados e, de acordo com o seu potencial, poderão ser os próximos produtos ou serviços da organização. Aproveitar o conhecimento, a experiência e a vontade dos colaboradores e de todos aqueles que contribuem direta ou indiretamente para o sucesso da organização é sem dúvida uma estratégia para estar na linha da frente pela disputa do pódio. É estar na organização vencedora e inovadora (Dornelas, 2003). É essencial que exista uma extrema organização interna e lideres à altura dos desafios para que toda a organização seja envolvida e seja chamada a intervir (Pinchot, 2004).

Intra-Empreendedorismo - José Dornelas

Sendo o intra-empreendedorismo uma forma de empreender é, por isso, natural que existam semelhanças entre o empreendedorismo e o intra-empreendedorismo, na figura dos empreendedores e intra-empreendedores.

Dornelas (2003) destaca oito semelhanças entre eles, tais como: (1) reconhecem, avaliam e exploram oportunidades; (2) têm como objetivo a criação de novos negócios, de novos produtos ou de novos serviços; (3) potenciam o nascimento de novas soluções a partir da visão e do desejo de empreender, construindo equipas e procurando implementar e desenvolver ideias; (4) têm que estar aptos a gerir, têm que ter paixão e paciência; (5) independentemente do momento, do tempo ou do espaço, ambos encontrarão dificuldades, resistências e obstáculos e terão que os saber ultrapassar de forma suficientemente inovadora para que esses entraves não voltem a surgir; (6) necessitam de ter capacidades criativas de forma a identificarem e alcançarem os recursos necessários; (7) possuem uma estratégia de recuperação de capitais investidos; (8) são motivados pela criação de valor. Existem também diferenças entre empreendedorismo e o intra-empreendedorismo, na figura dos empreendedores e intra-empreendedores.

Empreendedorismo - Loqr

O empreendedorismo assenta na criação de riqueza, procura por financiamento, criação de estratégias com sentido organizacional, exige um risco controlado e, espera-se, retorno para o empreendedor e para os acionistas (Pinchot, 2004). Pelo contrário, o intra-empreendedorismo, que se desenvolve dentro da própria organização, procura desenvolver o potencial interno e trabalhar paralelamente a um outro nível, procurando oportunidades de acordo com a estratégia da organização (Ferreira, Santos & Serra, 2008). O intra-empreendedorismo é uma forma inovadora de reagir aos desafios deste milénio, em especial à crise que as organizações atualmente atravessam (Dornelas, 2003).

Hoje em dia, enfrentamos tempos económica e socialmente difíceis e o empreendedorismo, a par do intra-empreendedorismo, são uma excelente ferramenta para ultrapassar as dificuldades e gerar a inovação, trazendo novos serviços, novos produtos e novas necessidades para o mercado (Dornelas, 2003). O empreendedorismo, a par do intra-empreendedorismo, são instrumentos de inovação que ajudam na criação de novas competências e no acesso a novos e competitivos mercados onde o valor criado será obsoleto se não forem antecipadas as necessidades reais, tanto do consumidor como da organização (Stokes, Wilson & Mador, 2010).

Assim, só uma organização sustentável, que reconheça a verdadeira diferença entre um empreendedor e um intra-empreendedor e que tenha a consciência dos seus reais limites, poderá transformar ideias em negócios de sucesso (Ferreira, Santos & Serra, 2008).

Intra-Empreendedorismo - Design Thinking

Interligar outras ferramentas empresariais, como a gestão de design e o design thinking elevando o processo empreendedor, levará a que as organizações estejam mais preparadas e os seus gestores mais aptos para ultrapassar os constantes desafios do mercado: inovando.

Contudo, a inovação não acontece por acaso, é um processo que pode ser organizado e gerido e ocorre por meio da procura de oportunidades ou do seu aperfeiçoamento (Bessant & Tidd, 2007). Inovação é sobre introduzir novos produtos, serviços ou processos ou romper com os existentes no mercado (Sarkar, 2010). A ideia de que existe uma forte relação entre inovação e empreendedorismo é defendida por Peter Drucker quando refere:

Inovação é a ferramenta específica dos empreendedores, o meio através do qual eles exploram a mudança como uma oportunidade para um negócio ou serviço diferente. Pode ser apresentada como uma disciplina, pode ser aprendida, pode ser praticada. Os empreendedores precisam de procurar decididamente as fontes de inovação, as mudanças e os seus sintomas que indicam oportunidades para inovações com sucesso. E eles precisam de conhecer e aplicar os princípios da inovação de sucesso (1985, tradução livre, p.17).

– Peter Drucker

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